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segunda-feira, 25 de outubro de 2010

MUTAÇÃO

Cai à noite
E a lua entra em desespero,
Quando um sono mais forte
Abraça e te leva para a cama,
Entre cardumes de sonhos
Entrega-te ao ninar.

Meia a noite
E a lua é uma pilha só,
Chispando seus raios, prateados,
Impõe-se de penetra
E te encontra excitada
Nos braços de um sonho tão lindo.

Finda a noite
E a lua orvalha tristezas,
Sozinha e entregue à loucura, se desespera,
Imaginando que acordarás para o sol,
E encontrarás a relva ainda molhada
Pelos prantos, do ciúme desta paixão ignota.

OBSTINAÇÃO

Embrenho-me na Ubaldo à noite
Em busca de coisas novas,
A fim de libertar-me deste tédio,
Que teima em incomodar-me,
Mas só encontro negrume,
Às vezes, de quando em quando,
Um ponto ou outro de luz,
De um pirilampo solitário,
Ou de um cigarro viciado,
Que passa de boca em boca,
A fim de todos ali se ligar.
Outras vezes, um gemido discreto,
Assim, de um casal apaixonado,
Ou mesmo um amor comprado,
Na beira, para ver o prazer chegar,
Após o violento galope que não vi
E nem quero ver, nunca mais,
Só quero continuar procurando,
Na Praça Cívica, não sei nem o que?
E já nem sei mais o que há por aqui,
Mas se vejo um brilho metálico,
Volto sobre os passos mal dados,
Temeroso demais de morrer,
Assim volto à boca da noite,
Com a certeza de não me encontrar,
Mas continuo pedindo à Santana,
Algo assim:
Abraça-me ó lua
Com teus raios prateados,
Faz de meu peito um criado
Para servir a teu luar!

sábado, 21 de agosto de 2010

JUÇAREANDO

Dança a irreverente folha ao vento,
Num estranho e lindo ritual,
Qual coreografada a mãos divinas,
Brilha a esbelta ninfa da Amazônia,
Sangram os olhos negros de iuacá,
Borbotões, cascatas de sabor,
Chamam ao paladar filhos da terra,
Eçabara, cainã te encontrou!

Um jamaxi caiuá da folha fez,
Para a carga leve mais ficar,
Durante a caminhada ainda desfruta
Do bom gosto das frutas que colheu,
Ao palmito tupã, por que te matam?
Se tão menor porção nos pode dar!
Katiba a ceuci entrega a alma,
Ao ver sahy nos olhos de baíra.

Açaí, bem sei, açaizeiros,
Igapó, tijuco é teu lugar,
Tuas folhas guardam o guahytí
Aonde a majuí vem descansar,
O tucano tem comida farta,
O sabiá deleita-se ao prazer,
É meu prazer também beber teu vinho,
Provar uma vez, nunca parar mais,
É néctar dos deuses qual tupã,
Ibiacy jamais deixa faltar,
Miraíra adoça-me o manjar,
No alguidá, o sangue do Amapá.

AS SOMBRAS SÃO

A Amazônia tem seus encantos,
Suas lendas e seus mistérios,
Que protegem e assombram a floresta,
Que nos causam arrepios
E muitos, só de pensar,
Assim é nossa mata, ou quase mata!
E o medo? Vem do nada, vem do tudo,
Da sombra de um anhingal,
Quem sabe de um aturiazal,
Ou mesmo de um açaizal!
Donde de repente ecoa um grito,
Um longo assovio, estridente,
Seria uma gargalhada macabra?
Nem se sabe o que se entende,
Mas sabem sim, os seres da floresta.
Que as sombras recriam a luz
Num resplendor de assombrações,
Que trazem o pavor, aos olhos,
No descerrar de nossas visões,
Levando-nos assim, do encantado, quem sabe?
Para os domínios de tupã.

sexta-feira, 13 de agosto de 2010

TREJEITO

Tanto à que desfila ante meus olhos,
Com tal elegância, a vi voar,
Geometricada o afã só traz-me,
Qual que desenhada ao meu prazer,
Ser seqüenciada ao que me dizem,
Como se não soubesse o que fazer
E bem antes que o degelo a contamine,
Chega-me um sorriso a ovacionar,
Cobre-me com um olhar feito trapézio,
Vendo-a me sorrir, Faz-me sonhar,
Mesmo que este canto só me encante,
Busco-me num mar que se afogou,
Roubo-me ao seu meu pensamento,
Sinto à que me possa respirar,
Sou tão mais eu, sim, neste momento,
Ser você? Quem me dera possa ter.

ENCANTO

Tinjo o céu em tons diversos,
Na poesia que me aconchega,
No recompor da prosa aos versos,
Numa alvorada, doutro amanhecer.

Qual desenhar um canto enluarado,
Às redondilhas irrompem a dó maior,
Massificando aquele amor só nosso
Num dedilhar de acordes incidentais.

Meu amor, tu sabes que me encanto,
Aos beijos, vejo em ti meu sol nascer,
E me dedico todo ao gorjeio do prazer.

Deliciando-me aos tantos teus carinhos,
Há todo canto sinto-me ao teu ninho,
E agradeço sempre a Deus, teu existir.

domingo, 27 de junho de 2010

DESCASO

Sombras de tristezas cobrem-me a alma,
Negras nuvens fumam-me o céu,
Enquanto pés descalços pisam o barro,
Casas quantos me podem morar?
Sou socorro aos gritos quem me ouve?
Foice à esperança do viver,
Converter-me à morte quem me espera?
Terra, quantos palmos posso ter?

Ser enlouquecido de arma em punho,
Tiro a esmo, quantos posso ouvir?
Terra se deixou a quem precisa,
Como se delega a um filho seu,
Só se filho desta não ser nunca,
Incompreender-me à vida à que fiquei,
Ser expulso dum palmo de terra,
Ser mandado a sete, que me der!

Sonhar, por que sonhar?
Quem me daria um prato de comida,
Ou um punhado de chão para plantá-lo?
Procurar sentido nesta vida,
É degustar sabores que não os quero,
Enfrentar tais feras peçonhentas,
É pedir para ser pisoteado,
Ser sem terra, ô sonho desgraçado!
É comprar a morte a prestações,
Cada invasão é uma parcela,
E torcer para não ser sorteado,
Mas a sorte às vezes é um açoite,
Como posso desta escapar?